segunda-feira, abril 10

Coelho na Lua


Mogno, pinho e embuia

Geólogo

Tião é marceneiro. Quando criança queria ser geólogo. Adorava vulcões. Carrega em suas mãos as marcas daquilo que ele não escolheu mas que faz com sorriso e ciência. aprendeu sobre a robustez da embuia, a nobreza do mogno e leveza do pinho. Talha como um artesão.

Tião trabalha numa grande fábrica. e são cadeiras, prateleiras, estantes, aparadores, tablados, palcos. se enerva ao ver um Luiz XV destroçado. outro dia, por piada ou raiva, colou um encosto de cadeira e previniu-se de que ela nunca mais voltaria armando-a por dentro com uma viga de metal.

mesmo não tendo a opção, vive aquilo que faz. não sei dizer ao certo se gosta ou não do trabalho, tão pouco avaliar se faz um "bom" trabalho. faz o que pode. carrega em seus ombros um mundo.

lembro de quando queriam levar uma cadeira torneada para que outro a arrumasse. ele separou num canto, e quando ninguém estava olhando, talhou. porque é o seu trabalho.

está muito chateado. há uma quantidade de cadeiras ..umas 50 que ensaiam ser arrumadas. mas pobres. apenas o tempo de um remendo e plaft, se quebram novamente, e por fim nunca saem de lá. o tempo que ele pede, porque sabe da gente e sabe do quanto, sempre acena como uma daquelas pessoas que acenam para alguém atrás de ti. quando ele se anima a receber o abraço, o tempo passa-lhe reto, ignorando-o. e na segunda e terceira vez, e na quarta, Tião fica ressabiado e congela esperando receber o abarço, que sempre parece vir para ele, mas nunca chega.

e dentre tantas idas e vindas de cadeiras, mesas e pedidos, quiseram que ele, um, pudese com o mundo e o tempo todo do mundo comprimidas numa fração de segundo. não pode. e o mundo caiu sobre seu colo.

Tião, frágil, gritou. entristeceu-se. afinal que mal havia feito, senão entregar-se àquilo que fazia? por quê? não enxergavam os outros que só tinha 2 braços 2 pernas dois olhos? e por mais que quisessem, o mundo jamais caberia nele. murchou. não entendia porque o aceno que era tão claro em sua direção escpava-lhe pela tangente. com as mãos trêmulas de nervosas pegou um café, acendeu um cigarro e olhou para o céu onde uma nuvem gorda e branca passeava pesadamente. segiu seu dia.

em casa, no sopé da montanha olhou para o topo. anoiteceu, a lua de outono trouxe consigo o coelho, como um grande sumie em lona branca estendida redonda no céu. pensou nos vulcões, e entendeu como os primitivos podiam olhar uma montanha e acrditar que aquilo era Deus ou obra dele... e entendeu o engano.

Tião sentou e chorou. tudo que ele precisava era dormir.

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